segunda-feira, 29 de março de 2010

Irreconhecível...

Me encaro frente ao espelho:
Indesejável ser!
Que à alma traz
Repugnância ineficaz
Para trazer de volta a paz...
Maneira errante que não satisfaz
De querer ser algo a mais
Que um menor e imutável ser
Que não aceita mais se ver
Nas rugas a aparecer...

sábado, 27 de março de 2010

Memórias

No deserto campo
Em que habita a alma,
A invisível realidade!
Seria apenas brisa que bate
Ou calafrio de saudade?

Passada já por mim a brisa,
Restou apenas a lembrança
Que carece de esperança
De voltar a ser um dia carne...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Estranha desilusão

Saí para ver o dia
Mas já era noite
E eu não sabia!

Logo eu, que precocemente li
As mais crédulas palavras!...
Tão falsas sobre o que vi
Que me levaram a uma errante estrada,
Por onde passa a desilusão,
Que mata toda espera em vão
De qualquer acaso libertário
Das palavras de algum missionário...

Rastros

De passos errantes
Caminha a humanidade!
Entre zumbis ambulantes
E sanguínea vaidade.

Miséria herdada

Na esperança da colheita em pedaços
Caminha um povo manco, insustentado!
Massivamente explorado
E miseravelmente herdado...
Infrutífero suor que implora
Dessa gente, que calada chora
Na carne que tem agüentado
Resistir como se fosse gado...

sábado, 20 de março de 2010

Restos humanos

De uma caótica humanidade,
Restaram apenas bandeiras erguidas,
Numa falsa superioridade,
Manchadas violentamente
De sangue e desigualdade
D’um povo já indiferente:
Escravos de um poder que mata
A vida de sua própria gente...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Ruas de afeto

Pessoas passam urgentes
Deixando seus rastros carentes
De afeto por uma rua, já vazia,
Depois de as sustentar, noite e dia,
No corre-corre do dia a dia,
Com seu solo pisoteado,
Acolhendo inevitavelmente
Garotos de infância perdida
Cobertos por um sonhar descrente
E expostos em qualquer esquina.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Idosos, coletivos e a falta de educação numa cidade caindo aos pedaços...

Estava passando de ônibus pelo Centro da cidade, com a cara tímida aprofundada em um livro. Quando levantei ocasionalmente os olhos para ver o que ocorria naquele universo em minha volta, o ônibus parou por um instante em um ponto. Vi que havia um intenso movimento de passageiros transitando pela porta da frente, alguns saindo e alguns entrando. Dentre eles, um senhor me chamou a atenção por conseguir expressar, trêmulo, mesmo à distância, a revolta do esquecimento e do descaso do qual sofreu.

Não... O senhor não conseguiu entrar no ônibus, mas conseguiu transferir aquele gesto de revolta para as pessoas que o viram injustamente esquecido, inclusive a mim, encarando o motorista com olhar justamente acusatório.

Porém, em contrapartida, um senhor, que estava ao meu lado, ficou abismado mesmo com um sujeito fazendo uma espécie de tatuagem de rena em outro rapaz no meio da rua, ao olhar a cena pela janela, ignorando seu “contemporâneo”.

Os transportes coletivos nos levam a um mundo infindo de questões, entre reflexões sociais, revoltas e até mesmo acontecimentos surreais.

Outro dia, por exemplo, também no ônibus, já de pé (sorte?) para descer no ponto de destino, fiquei entre a discussão de duas senhoras que, de um lado ao outro, rebatiam críticas e defesas quase que aleatoriamente em relação aos problemas da cidade, levando questões políticas para o campo pessoal como forma de defesa de seus distintos pontos de vista.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um minuto de silêncio...

Instante de clemência inútil:
O respeito à ausência
Que cala a ignorância,
Interrompendo por hipocrisia
O lamento dos sem importância

Aqui jaz mais um João!
Apenas a lembrança em vão
Das marcas da sua mão,
Expostas invisivelmente
Nos edifícios que construiu,
Erguidos inutilmente...

Alcançaria o céu agora
Ou seria eternamente
O desencanto de seu expediente?

domingo, 14 de março de 2010

Poesia

Alma exposta
Em palavras,
Como resposta
À vida,
Que em idéias floresce!
A inspiração descrita,
Que aleatoriamente cresce
Na infinitude do sentimento
Subjetivamente explícito
Tocando de novo a alma por um momento.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O salto

Por caminhos de mistério
Pelos quais vaga a vida,
Deixou seus graves restos...
No coração, a ferida!
Tenebroso vazio que lhe invadia
Por ter aquela alma vadia...
Sentiu profundo arrependimento,
Tão profundo que a carne atingiu!
Respirou por um momento,
Pulou e ninguém mais o viu...
Enfim, o vazio exposto!
A importância inútil da tragédia, crua,
Demonstrando todo seu desgosto...
Por ele interditou-se toda uma rua!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Vida!

Olhava pela janela...
Vida correndo!
Sumiu, deixando
Apenas os restos
De uma ausência
Ignorando minha clemência
Transbordando impaciência...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Preguiça cega

Num dia tranqüilo,
A preguiça solta berros
Fingindo ligar
Para o ingrato destino
Pois é mais fácil ser cego
Do que enxergar!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Miragem de um momento

Uma brisa se faz carnal,
Num horizonte de esperança!
Ou voaria pelo vazio da lembrança?
Avisto uma miragem monumental:
Inspiração aos poetas fundamental,
Em seu efeito mais cruel,
Levando-me ao mais furioso céu,
Entre nuvens de decepção...
Intocável fatalidade!
Toca apenas o coração
Num instante de saudade!...